História da Coreia 3 - Parte 1

Atualizado: 23 de jul. de 2021



Olá pessoal! Nesta terceira parte veremos um período da história coreana que vai remeter do final do século IX especificamente a decadência e queda do Reino de Silla, no período tardio não mais aquele anterior em que Silla consegue praticamente unificar toda a península coreana. Isso vai conviver de certa forma com conflitos e com relacionamentos com os chineses da dinastia Tang, e haverá queda não somente da dinastia Tang como também a desagregação do Reino de Silla no século IX.

A partir daí, abre-se uma série de disputas pela península e depois haverá a ascensão de um Reino um pouco mais ao norte da península que vai se chamar Goryo, que vai estender sua dominação a boa parte da península coreana. Também ao norte, haverá embates inclusive com povos além da península, como os Kithans, que depois vai sobreviver de outras maneiras até mesmo se defrontar com outros invasores vindos das stepes asiáticas que serão os mongóis no século XIII.



Antes disso, Goryo também vai enfrentar a uma série de contestações internas, lideranças militares vão tomar o efetivo controle do Reino de Goryo no século XII, e no século XIII haverá então a entrada dos mongóis que inclusive chegam a tomar o trono imperial chinês, fundam a dinastia Yuan, e sob Kublai Khan torna o Reino de Goryo uma espécie de vassalo. Então é isso em suma que veremos nessa fase que eu achei melhor dividir em duas partes para não ficar demasiadamente grande. Então vamos lá!


A Crise de Silla no Século IX e a Emergência de Uma Nova Ordem


Começando aqui então, veremos que Silla encontra-se num período terminal, tem contestações vindas de exércitos e lideranças locais armadas que competem pelo controle das províncias do Reino de Silla, uma desagregação. Efetivamente a liderança, a autoridade começa a girar quase que em torno apenas da capital de Silla, Gyeongju, e essas lideranças locais vão ser semelhantes a senhores da guerra. E esses tiveram várias origens, não de uma aristocracia nem de uma liderança de um exército unificado, podem ter sido oficiais do exército, mas muitos vieram de origens humildes, de comerciantes poderosos, de monges que organizaram também milícias e outros membros rebeldes da aristocracia.

Enfim, há uma desagregação geral na segunda metade do século IX no Reino de Silla. A tradicional aristocracia tenta manter alguma dominação sobre os seus latifúndios, muitas delas ainda pertencentes a um sistema chamado "os ossos" como eu falei na postagem passada, é o sistema de classificação dos nossos Golpum. Tudo isso vai começar primeiro, a mostrar a decadência de Silla, segundo, conjugado a isso haverá também a crise na dinastia chinesa de Tang, o que abre um vácuo de poder na região do leste asiático e uma nova conjugação de poderes.



Povos nômades vindos além do norte da grande muralha chinesa e também além do norte da península coreana começam a entrar na região aproximando-se na península de Liaodong, e também nas proximidades do Rio Yalu já em 918 ou seja no início do século X, temos a ascenção de um outro Reino no norte da península coreana que é Goryo. Isso vai ser importantíssimo para o nosso tema de hoje, o estabelecimento e depois a decadência do Reino de Goryo.

Não é à toa que Goryo remete a um Reino anterior que chamado Goguryo, e Goryo vai ser um nome no qual vai depois se inspirar e vão evocar o nome Goryo que na pronúncia ocidentalizada é "Coreia" (korea).

Então, na passagem do século IX para o X, Silla vai entrar em colapso, uma série de crises vão contestar a dominação das famílias tradicionais nos altos cargos de comando, as finanças vão ser urdidas no Reino, uma excessiva isenção de impostos à classes sociais e instituições, muitas delas budistas, entendendo que Silla favoreceu muito o budismo e isso criou uma tensão com funcionários e uma elite de formação confucionista. O sistema tradicional dos ossos, o Golpum, estava desmoronando e as lealdades estavam cada vez mais questionando a autoridade tradicional de Silla.

À esquerda, Gung Ye e ao lado Gyeon Hwon



O Grande Ancestral e as Grandes Obras – Séculos IX ao XIII


E nesse contexto de crise aparecem figuras de destaque militar e também político, um deles vai ser Gung Ye (869 – 918), outro será Gyeon Hwon (892 – 935), que vão se tornar proeminentes senhores da guerra no período final do século X. Hwon era um oficial militar de excelente senso estratégico e de comando, que vai comandar seus homens na região sudoeste coreana a antiga Baekje, e Gung Ye vai ser também líder de bandidos de milícias nas regiões centrais, que antes pertenciam ao antigo Reino de Koguryo. Então Gung Ye visando consolidar suas autoridades e as lealdades locais, reúne suas conquistas e vai se tornar rei da região central e meridional da península coreana, ainda não como um rei de uma dinastia estabelecida.



Gung Ye vai inaugurar o período que vai ser chamado Baekje tardio ou Koguryo tardio, na virada para o século X, temos quase que um período de 3 reinos tardios na península coreana onde temos Koguryo, Baekje e Silla (período de 892 a 936). Esses 3 vão depois sofrer uma série de modificações com a ação de um outro oficial que era leal a Gung Ye, que era Wang Geon (877 – 943). E Wang Geon vai reunir esses três, vai submeter todos esses três reinos dando um golpe, depondo Gung Ye e fundando uma nova dinastia em 918, que é a dinastia Goryo.

Ele vai escolher como capital a atual cidade de Kaesong, e o nome da dinastia é na verdade uma abreviação de koguryo. Wang Geon na verdade, vai depois reconstruir a cidade de Pyongyang que era antiga capital de Koguryo que tinha sido abandonada por Silla, isso vai dar uma notável presença estratégica no norte coreano, na verdade ele conjuga duas capitais então, uma um pouco mais central e uma um pouco mais ao norte. Isso claro, vai seguir a geomancia budista tradicional de acordo com uma localização perfeita entre o Rio e as colinas das montanhas, e Pyongyang é idealmente localizada nesse sentido muito melhor do que a longínqua capital de Silla que era Gyeongju, que era muito mais costeira e afastada das regiões mais centrais da península coreana.


Wang Geon, Rei Taejo (918 – 943)
Wang Geon, Rei Taejo (918 – 943)

Wang Geon vai ser entronado e vai receber o título honroso de “Taejo” ou o Grande Ancestral, é importante entender que houve então a ascensão, e o início de uma nova a dinastia, a de Goryo. E apesar da consolidação desse reino, de Goryo, os sucessores de Taejo vão ter ainda problemas persistentes nas fronteiras deles, um deles vai ser os Kithans, os ancestrais dos mongóis inclusive, nas fronteiras que se estabelecem na região que hoje é a Manchúria. Dominam inclusive a estratégica península de Lialdong, e tudo isso foi depois de terem conseguido derrotar o reino anterior de Balhae, um momento derradeiro do Reino vem 926 que os Kithans atacam Balhae e põe fim a esse Reino, o que é interessante porque muitos de Balhae vão para Goryo e pedem para ser incorporados, pedem proteção do novo Reino coreano, e eles recebem. Inclusive são incorporados como um sistema de uma nova elite, no sistema social nascente de Goryo.



E dessa forma Taejo vai aparecer como grande unificador, além de ser o primeiro regente da dinastia, ele é o grande pai do que era considerado os povos do que seria hoje chamado os coreanos, em contraposição aos chineses e aos Kithans. Títulos nobiliárquicos vão ser distribuídos a várias famílias, clãs, inclusive os que eram parte de Balhae que fugiram para Goryo, e ele depois até costura todas as alianças e planeja então organizar uma narrativa desse Reino, remetendo aos ancestrais anteriores e nisso então é organizado um grande trabalho épico que depois vai ser o Samguk Sagi.


Samguk Sagi
Samguk Sagi

Talvez o maior legado de Taejo sejam as 10 Injunções (Sip Hunyo) que foram compilados no final do seu reinado. Hoje há muita discussão se houve mesmo, se foram elaboradas essas injunções, essas prescrições de ordenamentos, ou se foi uma farsa, o fato é que ele revela muito do que foi o ordenamento geral do Reino de Goryo, diz-se que foi respeitando esses ensinamentos, de um monge budista da época. E o que que falam esses novos ordenamentos? Primeiro ele tentou ordenar, claro, burocraticamente, politicamente e juridicamente o Reino, privilegiando questões budistas, das 10 injunções, 5 se referem a como o regente deve governar o Estado, com clara inspiração também nos chineses, de como os chineses tinham já organizado o seu Reino. Na quarta injunção há inclusive uma admiração pela cultura de Tang, mas sempre se preocupando em buscar uma singularidade coreana.



Talvez isso seja um dos elementos mais centrais desse período, como é que os coreanos buscam inspiração no sistema chinês mas ao mesmo tempo entendendo que existe singularidades.

Então em essência, era uma maneira de buscar uma ordem coreana inspirados sim nos sistemas chineses. O sistema do Reino de Goryo vai se assemelhar portanto, muito ao da China e em 958 o filho de Taejo, Gwangjong vai institucionalizar o sistema de exames universais como era praticado na China, os exames imperiais, que na Coreia era chamado de gwageo, mas tinha algumas realidades diferentes porque no Reino de Goryo, tinha praticamente apenas a entrada de funcionários selecionados que vinham das famílias tradicionais, na China também era um pouco isso só que na Coreia fica ainda mais restrito, porquê? Porque era questão também do alto custo dos estudos né, o ócio necessário para os estudos e a alfabetização, sistema de inscrita, o acesso aos clássicos para esses estudos. Aí se garante praticamente uma casta de funcionários confucianos por esses exames. E Gwangjong inclusive vai depois enfrentar algumas outras tentativas de reforma, ele queria o fortalecimento do Estado e até consegue isso né, há inclusive o confisco de escravos que eram pertencentes à famílias aristocráticas, para servir o poderio central e isso foi aprovado 956. Depois ele vai combater as ameaças dos Kithans além das fronteiras do norte e também a substituição de autoridades locais, antes baseadas em famílias de aristocráticas, por funcionários aprovados nesses exames imperiais, é um claro exemplo de que agora o Estado está promovendo a sua centralização, dominação do que antes era baseado em famílias aristocráticas. O poder central se fortalece em detrimento dos poderes locais, os funcionários vão ser frutos de sistema de méritos, aprovados nesses exames e não mais por sangue familiar.


E no aspecto militar, Goryo vai fortalecer-se com os homens recrutados por todo o território, muitos deles ex escravos que pertenciam às famílias aristocráticas locais. Então temos um duplo aspecto aí, a ascensão de funcionários que deviam a sua lealdade para com o Reino centralizado de Goryo, funcionários civis que fossem aprovados nos exames imperiais, e aqueles de cunho militar que ascendiam a hierarquia militar e se tornavam também lideranças militares no Reino de Goryo. Então é esse sistema dual que na verdade vai ser chamado de Yangban vai produzir depois uma elite que vai dominar a sociedade coreana nos séculos posteriores. Então é nesse contexto que surge o sistema yangban (dois ramos), claro que tinha aí o privilégio dos hyangni (membros de famílias aristocráticas e elites locais) o sistema de yangban vai começar a se consolidar no Reino coreano, e acredito que também tinha limites para essa tendência centralizadora da autoridade do rei, em 983 houve uma outra ordenação aprovada de que haveria contenções as tendências centralizadoras do soberano, as questões vitais do estado por exemplo deveria ser aprovado por um conselho de altos ministros.


Ilustração: Candidatos reunidos após a publicação do resultado dos exames, anúncio conhecido como “liberação do rolo”.
Ilustração: Candidatos reunidos após a publicação do resultado dos exames, anúncio conhecido como “liberação do rolo”.

É muito interessante porque não é uma excessiva centralidade na figura do rei, mas deve também ter um contexto, diante de um alto conselho de estado para efetivamente participar das decisões mais cruciais de cunho militar e também do legislativo. Isso foi uma coisa tipicamente coreana que os diferenciou também dos chineses. Os problemas iniciais de Goryo vai se dar sob esses aspectos, haverá depois outros embates, por exemplo no início do século XII Goryo vai ter outros povos da sua fronteira que vão fustigar as suas muralhas defensivas no Norte, inclusive comparam esse sistema de muralhas ali na região do Rio Yalu com até a grande muralha a da China. No século XII por exemplo, existiam outros povos que foram os Jurchen e eles vão susceder os Kithans na região da península Lialdong e todo o norte da China. Inclusive ele força a dinastia chinesa, Song, já na época no século XII a fugirem mais pro sul e aí os Songs inclusive fundam a sua capital na região da atual Nanquim, que foi fundada em 1129. Mas as relações de Goryo e a China dos Songs vão se aprofundar, mesmo porque há interesse dos dois de combater esse nômades, os Jurchens, que inclusive inauguram uma dinastia no norte/nordeste da China que vai ser chamada Jins.


Além do campo da política e dos assuntos bélicos, você também teve florescimento de um da cultura de Goryo na época, temos por exemplo a produção de cerâmicas envidraçadas que tinha uma cor que era praticamente uma coisa secreta que era conhecido e muito admirado pelos chineses dos Songs, e isso depois pela rota da seda, chega inclusive dos mercados da Ásia central e para os árabes. São tons semi-transparentes esverdeados que é uma cor chamada de pisaek, e pisaek vai ser tipo uma cor do Martim pescador, é uma cor única e muito valorizada pela sua beleza única. Muito comercializado nas cidades portuárias do leste asiático e das rotas terrestres.

Bom, a sociedade como um todo então vai se assentar nesses termos, o estado produz então uma elite de funcionários, haverá ação de algumas a famílias de privilegiados que também entram no sistema de yangban e entre eles famílias que ganham nomes ligados à realeza ou a aristocracia como os Kim e os Park, eu acho muito interessante porque esses dois nomes hoje são bastante comuns, esses sobrenomes na Coreia de hoje. Entendendo que como eu já falei nas postagens anteriores, que na Coreia você tem primeiro o nome de família depois o nome de batismo, por isso que se vê muitos Kim e Park hoje em dia na península coreana.


- Vou dividir aqui esta postagem e continuamos na PARTE 2!


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